segunda-feira, 24 de setembro de 2018

BOOK REVIEW \ "1984", GEORGE ORWELL


Reconheço que mesmo tendo tentado levar a leitura de "1984" para a frente, eu jamais teria compreendido a dimensão deste livro e tido sido capaz de desenvolver os raciocínios que me acompanharam ao longo da leitura, quando o peguei pela primeira vez, há dois ou três anos. Levei mais tempo do que pretendia, mas em cada investida, melhor absorvia a necessidade de me afastar, por vezes, dela: Esta experiência assemelhou-se à de quando eu li "O Retrato de Dorian Gray" .... Há que ter cuidado com o tratamento que aplicamos ao nosso pensamento quando decidimos consumir leituras que desenterram o melhor de nós, no que toca à desmistificação da humanidade.

"1984" reflete de maneira exemplar que a necessidade do controlo sobre os demais assume características e vidas próprias e que nos levam a crer que o medo advém daquele que tem nas mãos o poder sobre o submisso. Esse receio apenas demonstra uma presente impotência mental e que só é colmatada através de abusos praticados e que convertem certas existências em praticamente nada. Momentos não faltaram em que o meu estômago se revirou de pavor, angústia e sei lá quantas mais manifestações, de cada vez que as próprias personagens reconheciam os riscos que corriam, mas ainda assim investindo naquele instinto humano e natural que era constantemente monitorizada por um Partido autoritário, cobarde e manipulador.

Embora George Orwell tenha explorado uma realidade que lhe foi tão próxima, convertendo-a numa sátira tão viva, leva-nos a indagar acerca dos tempos em que vivemos hoje: afinal, já estivemos "mais longe" de sermos marionetas nas domínios do governo, tudo por uma questão temporal e que no mesmo instante nos protege e nos empurra para uma verdade avassaladora. De maneira a ter a população controlada, o Partido altera factos, observa-os a longas e curtas distâncias, resume-os a nada, a não ser que ela cumpra com o seu dever de amar o Grande Irmão, independentemente da sua existência estar ou não comprovada.

Esse amor, embora fictício neste aspeto, é algo que tem espaço para se desenvolver e nascer nas mãos de muitos na atualidade, sem eles mesmos se aperceberem do poder que entregam no colo daqueles que admiram cegamente, submissos a regras comportamentais que ninguém consegue explicar ao certo. Uns são movidos por uma paixão alucinada, outros pelo medo, e ainda há aqueles que sem saber como foram lá parar, aderem por não terem outra escolha. Os demais que ainda se guiam por um raciocínio lógico, são sacrificados pelas próprias crenças e obrigados a alterarem a sua natureza, de maneira a se enquadrarem. E é exatamente com estas e tantas outras premissas que George Orwell construiu "1984", uma realidade tão paralela que nos paralisa internamente.

Conhecem este livro? O que têm a dizer? ♥

1 comentário:

  1. O meu estômago contorceu-se a ler esta review, porque foi exactamente tudo o que senti quando li o livro pela primeira vez (sim, já o li 3 ou 4, por ser um dos meus favoritos de sempre!). Fico feliz que o teu interior tenha percebido com imensa maturidade que não estava na altura certa para leres um livro tão magnífico e que tenha esperado pela altura em que possibilitou a rebeldia dos sentimentos e a angústia humana que nos é inerente. Adoro.
    Ainda bem que gostaste do meu livro favorito <3

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